Carta aberta ao vizinho desconhecido
Bom dia!
Portanto…por onde começar?
Talvez pela vontade de estar a gritar consigo, em vez de escrever esta carta.
Há no entanto um detalhe que me impede de o fazer; o facto de me ser um total desconhecido.
Esta carta não é, no entanto, um convite para um duelo com luvas brancas. Nem sequer tenho um par delas em casa.
Tenho sim, imensa comichão, de cada vez que vou à minha janela para apanhar o ar fresco da manhã, e sou confrontado com as formas de móveis usados, árvores roubadas aos quintais, caixas vazias do Ikea, etc.
Hoje calhou-me um ajuntamento de caixas do Ikea. Acho isto, uma falta de respeito.
Eu compreendo que esteja contente com o facto de ter mudado de casa, ou de simplesmente ter remodelado o mobiliário da mesma. No entanto, com toda a certeza, concordará com o que tenho para lhe dizer a seguir.
Os móveis do Ikea têm nomes estranhíssimos.
Como tal, é um pouco desconfortável ter que lidar com uma mão cheia deles, logo pela manhã.
Agradeço que não me volte a sujeitar a tal coisa novamente, ou ainda passo por antipático, por não cumprimentar os sujeitos que tertuliam à minha janela, pelo nome.
Como primeiro contacto, gostaria de lhe oferecer uma tarte maçã, caso se confirme o facto de ser um “novo vizinho”.
Mas de momento, esta carta é o melhor que se consegue arranjar.
Ass: “O vizinho do R/C Fte do número 13.”
22 Setembro 2009
11 Agosto 2009
bolsos rotos
Alguém me empresta dinheiro para mandar afinar o piano?
Perdi as moedas que tinha no bolso e assim não consigo tocar.
Alguém me empresta dinheiro para mandar afinar o piano?
Perdi as moedas que tinha no bolso e assim não consigo tocar.
03 Junho 2009
a bipolaridade das riscas
Há pouco mais de um ano, escrevia algo acerca das zebras e da maneira como estas se movimentam na savana africana. Na altura, achava que havia uma semelhança muito grande entre as zebras que se refugiam debaixo das árvores como escape ao sol, e as zebras que se escondem no meio dos neons das urbes para atacarem de surpresa.
Hoje, mais do que nunca, concordo comigo mesmo.
A dança é a mesma, quer na savana, quer na urbe. Os protagonistas também são os mesmos: as zebras e os seus predadores. A única diferença, é que na urbe, a presa vira predador e o predador vira presa.
Na savana, as zebras usam as suas riscas para criarem um padrão que confunde os olhos dos seus predadores, conseguindo assim sobreviver.
Na urbe, as zebras usam as suas riscas para criarem um padrão semelhante, mas para não deixarem que as suas presas vivam.
Usam essas riscas para encherem as presas com excesso de informação. Criam um padrão de tal forma confuso, que a presa acaba por desistir de tentar sequer reagir. Deixa-se adormecer, lentamente, sem esboçar sequer uma tentativa de sobrevivência. Não consegue lidar com toda a informação com que o seu predador a ataca, e como tal, não pensa. Não o fazendo, deixa-se simplesmente morrer.
Todos os dias nos entra em casa informação inútil, com o único intuito de nos manter dormentes. O objectivo é que a aritmética falhe redondamente. Uma cabeça, não pode ser igual a um cérebro pensante. A ideia é conseguir-se uma espécie de federação das cabeças dormentes, onde só rege um presidente, um só cérebro pensante. Sei que isto pode soar um bocado a fight club, mas se analisarmos de uma forma crua, é isso mesmo que se passa.
Aqui, as presas que sobrevivem não são as que têm os olhos bem abertos, mas sim as que os conseguem fechar. É como ver cinema na primeira fila. Ou vês o filme e ficas com uma dor de cabeça terrível, ou fechas os olhos e limitas-te a ouvir as vozes. Depois do filme, os que abriram os olhos vão directos para casa na esperança de que um qualquer paracetamol lhes alivie a cabeça. Já os que fecharam os olhos, acabam a noite a tentar ligar as vozes às imagens que não viram. Em vez de serem bombardeados com aquelas manchas de cor, dão forma às suas próprias manchas.
Por vezes, a sede de informação acaba por nos desinformar.
Nem tudo o que é dito é para ser ouvido.
Há pouco mais de um ano, escrevia algo acerca das zebras e da maneira como estas se movimentam na savana africana. Na altura, achava que havia uma semelhança muito grande entre as zebras que se refugiam debaixo das árvores como escape ao sol, e as zebras que se escondem no meio dos neons das urbes para atacarem de surpresa.
Hoje, mais do que nunca, concordo comigo mesmo.
A dança é a mesma, quer na savana, quer na urbe. Os protagonistas também são os mesmos: as zebras e os seus predadores. A única diferença, é que na urbe, a presa vira predador e o predador vira presa.
Na savana, as zebras usam as suas riscas para criarem um padrão que confunde os olhos dos seus predadores, conseguindo assim sobreviver.
Na urbe, as zebras usam as suas riscas para criarem um padrão semelhante, mas para não deixarem que as suas presas vivam.
Usam essas riscas para encherem as presas com excesso de informação. Criam um padrão de tal forma confuso, que a presa acaba por desistir de tentar sequer reagir. Deixa-se adormecer, lentamente, sem esboçar sequer uma tentativa de sobrevivência. Não consegue lidar com toda a informação com que o seu predador a ataca, e como tal, não pensa. Não o fazendo, deixa-se simplesmente morrer.
Todos os dias nos entra em casa informação inútil, com o único intuito de nos manter dormentes. O objectivo é que a aritmética falhe redondamente. Uma cabeça, não pode ser igual a um cérebro pensante. A ideia é conseguir-se uma espécie de federação das cabeças dormentes, onde só rege um presidente, um só cérebro pensante. Sei que isto pode soar um bocado a fight club, mas se analisarmos de uma forma crua, é isso mesmo que se passa.
Aqui, as presas que sobrevivem não são as que têm os olhos bem abertos, mas sim as que os conseguem fechar. É como ver cinema na primeira fila. Ou vês o filme e ficas com uma dor de cabeça terrível, ou fechas os olhos e limitas-te a ouvir as vozes. Depois do filme, os que abriram os olhos vão directos para casa na esperança de que um qualquer paracetamol lhes alivie a cabeça. Já os que fecharam os olhos, acabam a noite a tentar ligar as vozes às imagens que não viram. Em vez de serem bombardeados com aquelas manchas de cor, dão forma às suas próprias manchas.
Por vezes, a sede de informação acaba por nos desinformar.
Nem tudo o que é dito é para ser ouvido.
27 Maio 2009
Incontinência verbal
Nos últimos dias voltei a dar uma espreitadela por alguns fóruns e foi engraçado ver como os tempos mudam, as bandas de quem se fala mudam, os users (ou pelo menos os nicks) mudam, mas a incontinência verbal continua.
Sempre achei piada à enorme coragem que algumas pessoas têm em assumir determinadas opiniões ou em vomitar moralismo e metodologia comportamental, escondidas nos seus alter-egos. É preciso ter-se um enorme par de tomates. E esses tomates são tanto maiores quanto maior é o número de posts. Aqui o que conta não é a idade, não é a classe social, não é o género, mas sim o name drop de coisas estranhas e os comentários carregados de ironia (só ao alcance das grandes mentes). Podes ser o gordo com quem ninguém queria brincar no recreio, podes ser o puto magro que levava carolos dos putos gordos por ninguém querer brincar com eles, podes ser o puto reguila que goza com os putos gordos porque não o conseguem apanhar depois de lhes ter chamado gordos, enfim…a única coisa que precisas de ter para seres respeitado, é achares que tens mais piada que os outros, que sabes mais nomes de bandas estranhas que os outros (mesmo que nunca as tenhas ouvido) e cuspires um sem número de comentários insípidos, mas sempre carregados de ironia. De vez em quando podes até soltar umas piadas sexistas e preconceituosas, porque todos vão achar que é propositado. Na verdade tu não és assim. Só o fizeste para provocar. Não se pense nunca que aquilo tem alguma ponta de verdade. Que é lá isso agora?
Ou seja, só precisas de encarnar o gajo culto com um sentido de humor carregado de ironia e procurar saber quais as bandas, livros e filmes certos, para os poderes usar até teres um número considerável de posts e ganhares status. Depois, quando o teu nick já tem um nome todo pimpão por baixo, podes deixar cair a máscara e soltar um ou outro apontamento daquilo que realmente és e que geralmente é o escritor frustrado por não ter escrito o livro que gostava de ter escrito, o compositor desolado por não conseguir passar para os instrumentos a música fora de série que tem na cabeça e que mais ninguém compreende, o gajo que sempre foi um atado com gajas e que aqui tem a possibilidade de realmente falar com pessoas do sexo oposto sem se mijar todo ou suar a roupa, etc.
Não sei porquê, mas ao pensar nisto tudo, só me vêm à cabeça os infelizes dos palhaços de circo. Sorrisos pintados e piadas formatadas, sempre a tentarem arrancar uma risada ou um aplauso aos seus espectadores. Tanta maquilhagem debaixo das luzes e tão pouco conteúdo no back-stage...
Tenho pena deles. Quando o circo apaga as luzes, voltam a ser quem realmente são…ninguém.
Nos últimos dias voltei a dar uma espreitadela por alguns fóruns e foi engraçado ver como os tempos mudam, as bandas de quem se fala mudam, os users (ou pelo menos os nicks) mudam, mas a incontinência verbal continua.
Sempre achei piada à enorme coragem que algumas pessoas têm em assumir determinadas opiniões ou em vomitar moralismo e metodologia comportamental, escondidas nos seus alter-egos. É preciso ter-se um enorme par de tomates. E esses tomates são tanto maiores quanto maior é o número de posts. Aqui o que conta não é a idade, não é a classe social, não é o género, mas sim o name drop de coisas estranhas e os comentários carregados de ironia (só ao alcance das grandes mentes). Podes ser o gordo com quem ninguém queria brincar no recreio, podes ser o puto magro que levava carolos dos putos gordos por ninguém querer brincar com eles, podes ser o puto reguila que goza com os putos gordos porque não o conseguem apanhar depois de lhes ter chamado gordos, enfim…a única coisa que precisas de ter para seres respeitado, é achares que tens mais piada que os outros, que sabes mais nomes de bandas estranhas que os outros (mesmo que nunca as tenhas ouvido) e cuspires um sem número de comentários insípidos, mas sempre carregados de ironia. De vez em quando podes até soltar umas piadas sexistas e preconceituosas, porque todos vão achar que é propositado. Na verdade tu não és assim. Só o fizeste para provocar. Não se pense nunca que aquilo tem alguma ponta de verdade. Que é lá isso agora?
Ou seja, só precisas de encarnar o gajo culto com um sentido de humor carregado de ironia e procurar saber quais as bandas, livros e filmes certos, para os poderes usar até teres um número considerável de posts e ganhares status. Depois, quando o teu nick já tem um nome todo pimpão por baixo, podes deixar cair a máscara e soltar um ou outro apontamento daquilo que realmente és e que geralmente é o escritor frustrado por não ter escrito o livro que gostava de ter escrito, o compositor desolado por não conseguir passar para os instrumentos a música fora de série que tem na cabeça e que mais ninguém compreende, o gajo que sempre foi um atado com gajas e que aqui tem a possibilidade de realmente falar com pessoas do sexo oposto sem se mijar todo ou suar a roupa, etc.
Não sei porquê, mas ao pensar nisto tudo, só me vêm à cabeça os infelizes dos palhaços de circo. Sorrisos pintados e piadas formatadas, sempre a tentarem arrancar uma risada ou um aplauso aos seus espectadores. Tanta maquilhagem debaixo das luzes e tão pouco conteúdo no back-stage...
Tenho pena deles. Quando o circo apaga as luzes, voltam a ser quem realmente são…ninguém.
19 Maio 2009
Ideias de urinol
É incrível a quantidade absurda de vezes que vou a uma casa de banho pública numa qualquer aldeia de macacos onde ao fim de semana se venera a marcha dos tristes, e tenho que levar com discursos enrolados de gajos pensantes...gajos errantes. Gajos cheios de corantes e conservantes. É que esta coisa dos ”es” com números à frente leva-lhes a verborreia à cabeça.
Esquivar-me aos salpicos do urinol, eu ainda consigo. Mas ter que lidar com salpicos de frente e de lado, já é um bocado demais.
E o pior é que estes gajos apontam em qualquer direcção. Cada urinol, para eles, é sinónimo de “melhor amigo”. Chamem-me individualista. Chamem-me anti-altruísta. Mas há alturas na vida em que acho que deve ser cada qual por si mesmo.
A partir de agora, vou passar a usar as casas de banho privativas. Os urinóis são práticos e há sempre um disponível, mas são chatos como o raio. As privativas podem-nos fazer esperar um pouco para ficarem vagas, mas ao menos são mudas. Algumas ainda tentam falar através da sua arte rupestre, mas com isso lido eu bem. Fecho os olhos e pronto.
Já uma pessoa está traumatizada o suficiente por ter que se mascarar de “macaco Adriano” e ainda tem que ouvir coisas pelas quais não nutre o mínimo interesse… Se eu quisesse saber o que se passou no jogo de futebol de domingo passado, tinha comprado um qualquer jornal desportivo. Nunca gostei de ouvir telefonia em casa, não vai ser agora numa casa de banho pública que vou passar a gostar. Falem com a própria pila…se a encontrarem.
Nunca fui grande adepto de silogismos:
“Todos os meus amigos que têm pila adoram bola.
Este gajo do urinol ao lado tem pila.
Logo, este gajo adora bola.”
Alguém se esqueceu de explicar a este gajo que para tudo isto fazer sentido, além de ter pila, eu teria que ser amigo dele.
“Todas as pilas que são tuas amigas gostam de bola.
A minha pila nem sequer é tua amiga, para poder respeitar a tua lógica.
Logo, só uma pila atrofiada como tu é que pode partir do princípio que a minha pila gosta de bola."
"E sim, eu uso uma folhinha de papel higiénico para a última pinga, em vez das minhas cuecas.”
É incrível a quantidade absurda de vezes que vou a uma casa de banho pública numa qualquer aldeia de macacos onde ao fim de semana se venera a marcha dos tristes, e tenho que levar com discursos enrolados de gajos pensantes...gajos errantes. Gajos cheios de corantes e conservantes. É que esta coisa dos ”es” com números à frente leva-lhes a verborreia à cabeça.
Esquivar-me aos salpicos do urinol, eu ainda consigo. Mas ter que lidar com salpicos de frente e de lado, já é um bocado demais.
E o pior é que estes gajos apontam em qualquer direcção. Cada urinol, para eles, é sinónimo de “melhor amigo”. Chamem-me individualista. Chamem-me anti-altruísta. Mas há alturas na vida em que acho que deve ser cada qual por si mesmo.
A partir de agora, vou passar a usar as casas de banho privativas. Os urinóis são práticos e há sempre um disponível, mas são chatos como o raio. As privativas podem-nos fazer esperar um pouco para ficarem vagas, mas ao menos são mudas. Algumas ainda tentam falar através da sua arte rupestre, mas com isso lido eu bem. Fecho os olhos e pronto.
Já uma pessoa está traumatizada o suficiente por ter que se mascarar de “macaco Adriano” e ainda tem que ouvir coisas pelas quais não nutre o mínimo interesse… Se eu quisesse saber o que se passou no jogo de futebol de domingo passado, tinha comprado um qualquer jornal desportivo. Nunca gostei de ouvir telefonia em casa, não vai ser agora numa casa de banho pública que vou passar a gostar. Falem com a própria pila…se a encontrarem.
Nunca fui grande adepto de silogismos:
“Todos os meus amigos que têm pila adoram bola.
Este gajo do urinol ao lado tem pila.
Logo, este gajo adora bola.”
Alguém se esqueceu de explicar a este gajo que para tudo isto fazer sentido, além de ter pila, eu teria que ser amigo dele.
“Todas as pilas que são tuas amigas gostam de bola.
A minha pila nem sequer é tua amiga, para poder respeitar a tua lógica.
Logo, só uma pila atrofiada como tu é que pode partir do princípio que a minha pila gosta de bola."
"E sim, eu uso uma folhinha de papel higiénico para a última pinga, em vez das minhas cuecas.”
20 Março 2009
As rodinhas são para os meninos
Já não quero rodinhas!
Uma bicicleta quer-se com duas rodas. Não vejo grande sentido em andar de triciclo aos vinte e oito anos. Perdão, vinte e nove. Ainda não me habituei à ideia...
Venham os arranhões nos joelhos. Venham as nódoas negras nos braços.
"Arrebenta a bolha!".
Estou farto de estar fechado neste ambiente estéril, a viver na ilusão de estar protegido. Protegido de quê?
As bolhas de ar só são úteis até podermos tirar os pensos das feridas. Depois disso já começa a cheirar a anestesia. As feridas saram melhor ao ar livre.
Se tenho medo de me espalhar outra vez? Claro que sim! Quem não tem?
Mas tem alguma piada estar fechado num hospital? Claro que não! Mil vezes encher a boca de areia no parque infantil ou levar com um baloiço nas costas.
Chegou à altura de ir brincar para a rua outra vez.
Nenhum puto cresce fechado em casa. Nenhum homem ganha barba se não a puxar.
E eu quero ter uma barba farta. Uns golpes ao lado aqui, umas borbulhas ali, mas nada que um bocado de papel higiénico ou um stick de Clearasil não resolvam.
Como tal, resolvi atirar-me de cabeça. Não interessa se bato de chapão.
Se é cedo? O que é que isso interessa? Neste momento a única coisa que me interessa é o agora. E no agora, o que me interessa é esta urgência de mostrar o que sinto sem me preocupar em medir as palavras. As palavras são mudas. Não são nada se não vierem de dentro. E o que tenho aqui dentro é demasiado grande para ficar guardado.
Por isso te deixo a chave da minha casa. Podes entrar sempre que quiseres...
Já não quero rodinhas!
Uma bicicleta quer-se com duas rodas. Não vejo grande sentido em andar de triciclo aos vinte e oito anos. Perdão, vinte e nove. Ainda não me habituei à ideia...
Venham os arranhões nos joelhos. Venham as nódoas negras nos braços.
"Arrebenta a bolha!".
Estou farto de estar fechado neste ambiente estéril, a viver na ilusão de estar protegido. Protegido de quê?
As bolhas de ar só são úteis até podermos tirar os pensos das feridas. Depois disso já começa a cheirar a anestesia. As feridas saram melhor ao ar livre.
Se tenho medo de me espalhar outra vez? Claro que sim! Quem não tem?
Mas tem alguma piada estar fechado num hospital? Claro que não! Mil vezes encher a boca de areia no parque infantil ou levar com um baloiço nas costas.
Chegou à altura de ir brincar para a rua outra vez.
Nenhum puto cresce fechado em casa. Nenhum homem ganha barba se não a puxar.
E eu quero ter uma barba farta. Uns golpes ao lado aqui, umas borbulhas ali, mas nada que um bocado de papel higiénico ou um stick de Clearasil não resolvam.
Como tal, resolvi atirar-me de cabeça. Não interessa se bato de chapão.
Se é cedo? O que é que isso interessa? Neste momento a única coisa que me interessa é o agora. E no agora, o que me interessa é esta urgência de mostrar o que sinto sem me preocupar em medir as palavras. As palavras são mudas. Não são nada se não vierem de dentro. E o que tenho aqui dentro é demasiado grande para ficar guardado.
Por isso te deixo a chave da minha casa. Podes entrar sempre que quiseres...
13 Fevereiro 2009
puto xarila, macaco sem pila
Tenho-me portado mal desde que começou o ano. Mas por bons motivos...
Não escrevo, não durmo, esqueço-me de coisas, esqueço-me de comer...MAS ESTOU FELIZ!
Nunca a frase "Ano novo, vida nova." fez tanto sentido como agora.
Tudo aquilo que há uns tempos atrás pensava distante, está agora ao meu alcance. E não, não é o amor a falar. Ou pelo menos, não é só isso. É como se de repente todas as estrelinhas e as coisas cósmicas pelas quais não tenho um pingo de fé se tivessem juntado e decidido que afinal tinham pena de mim. "Vá...vamos lá dar um palmadão no rabo deste puto. O gajo está chato como a merda com estes dilemas todos na cabeça por resolver. Não estou pra levar todas as semanas com lamechices sobre como lidar com situações triviais. Que seca... ".
E assim devem ter feito, porque a verdade é que levei uns bons pares de estalos na tromba desde que começou o ano. Mas daqueles bons. Daqueles que até nos fazem virar a cara para o lado e reparar em coisas que não podem ou não devem ser ignoradas. Oportunidades, portanto.
O puto procurou e lá encontrou o trabalho que queria. Só mesmo pra não ter que pedir dias de férias ao patrão para poder tocar com a banda, lá conseguíu arranjar maneira de ir trabalhar para a agência da mesma. É que ao contrário do que alguns possam pensar, só brincar às bandas ainda não chega para pagar a renda, as contas, a comida, os pequenos luxos, os jantares com os amigos, os concertos bons e os que se revelam uma seca, os discos que nunca mais chegam, etc. O rock à séria ainda não chegou a Portugal. As bandas realmente fixes, ainda não conseguem viver de serem só fixes. Talvez venha o dia em que fixe nos pague as contas. Ou talvez deixemos de ser fixes...
O puto procurou e lá encontrou uma casa à sua medida. Directamente saída dum filme de David Lynch, o pessoal da produção deve-se ter esquecido dos adereços e como tal, o puto agradece. Já pode brincar às pessoas crescidas, mas sem deixar de ser puto. Espelhos do tamanho de paredes, paredes forradas a cortiça, candeeiros mais chungas que a chungaria do miradouro ao lado, o adamastor aponta a direcção e o puto já tem onde guardar tudo o que de útil e inútil foi juntando ao longo dos anos.
O puto procurou, não encontrou, duvidou que viesse a encontrar, continuou a procurar, desistiu de procurar, e de repente leva com tudo de chapão no peito e reencontra a paixão. E sabe tão bem... O alívio de não se ter tornado um cubo de gelo, o alívio de largar pingos de mijo nas cuecas de novo, o alívio de simplesmente voltar a sentir. Afinal ainda há salmão em Lisboa! Há quem cause atrito, quem não se deixe escorregar lentamente pra debaixo do sofá. Há quem desperte emoções e cumplicidades. Quem simplesmente seja genuíno, quem não tenha medo de ser. Quem dê e receba sem grandes subterfúgios, sem cordas penduradas. Alguém sem medo de ser puto também.
O puto comprou os rolamentos, roubou as tábuas nas obras, comprou pregos na calçada do combro, pegou no martelo e fez o carrinho de rolamentos mais fixe de Lisboa.
O puto foi até à bica, sentou o cú na geringonça e aí vai ele. Se vai partir os dentes todos no fim? O que é que isso interessa? Que os parta. O que não falta por aí são dentistas...
Tenho-me portado mal desde que começou o ano. Mas por bons motivos...
Não escrevo, não durmo, esqueço-me de coisas, esqueço-me de comer...MAS ESTOU FELIZ!
Nunca a frase "Ano novo, vida nova." fez tanto sentido como agora.
Tudo aquilo que há uns tempos atrás pensava distante, está agora ao meu alcance. E não, não é o amor a falar. Ou pelo menos, não é só isso. É como se de repente todas as estrelinhas e as coisas cósmicas pelas quais não tenho um pingo de fé se tivessem juntado e decidido que afinal tinham pena de mim. "Vá...vamos lá dar um palmadão no rabo deste puto. O gajo está chato como a merda com estes dilemas todos na cabeça por resolver. Não estou pra levar todas as semanas com lamechices sobre como lidar com situações triviais. Que seca... ".
E assim devem ter feito, porque a verdade é que levei uns bons pares de estalos na tromba desde que começou o ano. Mas daqueles bons. Daqueles que até nos fazem virar a cara para o lado e reparar em coisas que não podem ou não devem ser ignoradas. Oportunidades, portanto.
O puto procurou e lá encontrou o trabalho que queria. Só mesmo pra não ter que pedir dias de férias ao patrão para poder tocar com a banda, lá conseguíu arranjar maneira de ir trabalhar para a agência da mesma. É que ao contrário do que alguns possam pensar, só brincar às bandas ainda não chega para pagar a renda, as contas, a comida, os pequenos luxos, os jantares com os amigos, os concertos bons e os que se revelam uma seca, os discos que nunca mais chegam, etc. O rock à séria ainda não chegou a Portugal. As bandas realmente fixes, ainda não conseguem viver de serem só fixes. Talvez venha o dia em que fixe nos pague as contas. Ou talvez deixemos de ser fixes...
O puto procurou e lá encontrou uma casa à sua medida. Directamente saída dum filme de David Lynch, o pessoal da produção deve-se ter esquecido dos adereços e como tal, o puto agradece. Já pode brincar às pessoas crescidas, mas sem deixar de ser puto. Espelhos do tamanho de paredes, paredes forradas a cortiça, candeeiros mais chungas que a chungaria do miradouro ao lado, o adamastor aponta a direcção e o puto já tem onde guardar tudo o que de útil e inútil foi juntando ao longo dos anos.
O puto procurou, não encontrou, duvidou que viesse a encontrar, continuou a procurar, desistiu de procurar, e de repente leva com tudo de chapão no peito e reencontra a paixão. E sabe tão bem... O alívio de não se ter tornado um cubo de gelo, o alívio de largar pingos de mijo nas cuecas de novo, o alívio de simplesmente voltar a sentir. Afinal ainda há salmão em Lisboa! Há quem cause atrito, quem não se deixe escorregar lentamente pra debaixo do sofá. Há quem desperte emoções e cumplicidades. Quem simplesmente seja genuíno, quem não tenha medo de ser. Quem dê e receba sem grandes subterfúgios, sem cordas penduradas. Alguém sem medo de ser puto também.
O puto comprou os rolamentos, roubou as tábuas nas obras, comprou pregos na calçada do combro, pegou no martelo e fez o carrinho de rolamentos mais fixe de Lisboa.
O puto foi até à bica, sentou o cú na geringonça e aí vai ele. Se vai partir os dentes todos no fim? O que é que isso interessa? Que os parta. O que não falta por aí são dentistas...
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